25 de agosto de 2015

Vale a pena ver e ouvir...


De Joelhos


“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
 Bendito o leite que te fez crescer
 Bendito o berço aonde te embalou
 A tua ama, pra te adormecer! 

Bendita essa canção que acalentou
 Da tua vida o doce alvorecer ...
 Bendita seja a Lua, que inundou
 De luz, a Terra, só para te ver ...

 Benditos sejam todos que te amarem,
 As que em volta de ti ajoelharem
 Numa grande paixão fervente e louca!

 E se mais que eu, um dia, te quiser
 Alguém, bendita seja essa Mulher,
 Bendito seja o beijo dessa boca!

 Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

28 de outubro de 2014

Sou irmão de todos vós! O vosso sofrimento é sofrimento meu!


Sou irmão de Luís de Vaz de Camões, José Saramago, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Marquês de Pombal, Afonso Costa, Agostinho da Silva, Camilo Castelo Branco, General Humberto Delgado, Zeca Afonso, Maria Severa, Amália Rodrigues e Florbela Espanca. 

Sou irmão de Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi e Nelson Mandela. Sou irmão de Sócrates, o maior sábio da Antiga Grécia e da Humanidade, que foi condenado à morte por dizer verdades incómodas. 

Sou irmão de todos os meus compatriotas que foram atirados para o flagelo do desemprego. Sou irmão de todas as pessoas que foram transformadas em escravas. Sou irmão de todos os que foram perseguidos e torturados pela Inquisição, por António Oliveira Salazar, por Francisco Franco, por Benito Mussolini, por Adolfo Hitler, por Estaline e por outros ditadores. 

Sou irmão daqueles a quem falta o necessário para viverem com a dignidade a que todos os Seres Humanos têm direito. Sou irmão de todos vós, crianças, adolescentes, jovens e adultos, que sofreis neste nosso mundo, seja por que motivo for. 

O sofrimento dos outros Seres Humanos sempre foi, e continua a ser, sofrimento meu! 

18 de outubro de 2012

Em Memória do "Porta-Voz da Humanidade".


Se em algum momento da História da Humanidade uma Nação teve um porta-voz, essa Nação foi, sem dúvida alguma, a Índia. E o seu porta-voz, consensual, na primeira metade do século XX, foi Mohandas Karamchand Gandhi – Mahatma, a ‘Grande Alma’.

Mahatma Gandhi dedicou a sua vida à causa da Independência da Índia, actuando sempre, política e religiosamente, em perfeita harmonia com a Tradição de seu Povo.
Descendente de Brahmanes, Gandhi regista na sua autobiografia a frequência aos locais sagrados e de prece, com a mesma naturalidade que regista episódios corriqueiros e quotidianos. A religião dos seus ancestrais havia lançado profundas raízes no seu coração.

Como era hábito na altura, casou ao final da infância, com uma prima, de nome Kasturbai, também ela a sair da infância. Adulto, parte para estudar direito, em Londres. Forma-se em 1891. Regressa à sua terra, para praticar a profissão. Dois anos depois, é convidado a ir para a África do Sul. Aí, trabalha com uma empresa hindu e enfrenta as primeiras dificuldades, diante do poderoso Império Britânico. Em 1914, regressa à Índia, em definitivo, e dá início à sua luta pela independência da dominação britânica, que já dura há quase três séculos.

Como líder político e espiritual da Índia, Gandhi soube utilizar, com eficácia, toda a Tradição, para voltar a erguer o orgulho da sua Gente, abalado pela dominação inglesa. E, actuando desta forma, deu muito que pensar àqueles que se consideravam ‘superiores’ e que, por isso, dominavam.
Perante o discurso do dominador, denotando uma pretensa “superioridade” que, ao fim e ao cabo, se circunscreve apenas ao campo da belicosidade, Gandhi centra a sua luta na procura de demonstrar a superioridade moral dos hindus sobre os seus dominadores britânicos.
E consegue reavivar a mente dos seus conterrâneos, quanto a dois ensinamentos, tão antigos quanto o hinduísmo, que costumava apresentar desta forma simplificada: ‘Persistência pela Verdade’ e ‘Viver em Santidade’.

Gandhi pregava a resistência pacífica (não confundir com passiva; a não violência deve ser activa e provocativa). Não concordar em se submeter ao mal, e estar disposto a dar, até, a vida, se necessário for, para provar que se está do lado do que é justo, bom e correcto.
Foi assim que, de demonstração maciça em demonstração maciça, demonstrou, muitas vezes, ao Império Britânico, a superioridade moral daquele Povo oprimido e dominado.

A famosa ‘Marcha para o Sal’ foi um ponto de inflexão decisivo. Os Hindus, moradores da região banhada pelo Oceano, não por acaso chamado de Índico, eram proibidos de produzir sal.
O sal, utilizado diariamente por todas as famílias, tinha o fluxo, a produção e a circulação, monopolizadas pelos britânicos. Gandhi ensina os hindus a desobedecerem a esta injustiça.

Em 1930, encontrando-se no Centro da India, faz saber ao primeiro-ministro britânico que se dirigiria ao mar, para produzir sal, num gesto de desobediência civil, activa, provocativa e contudo pacífica.
Foi acompanhado por um pequeno grupo. E a este se foram juntando cada vez mais significativas massas humanas. Há quem afirme que milhares de pessoas andaram mais de trezentos e vinte quilómetros, a pé. Este contingente imenso de seres humanos, chega à praia e começa a fazer sal. Qual o problema? O povo da Índia vai à praia banhada pelo Oceano Índico fazer sal para o seu consumo. O que têm os britânicos a ver com isso? O controlo do sal estava na raiz do controle de toda a economia hindu, pelos britânicos.
No momento em que Gandhi começa a fazer sal, e a ser imitado, a dominação é colocada em xeque. Os ingleses já não controlam os indianos. Estes estão prestes a tomar  o seu destino nas suas próprias mãos.
Outros factores contribuem para que a emancipação do Povo Hindu aconteça de maneira diferente daquela que era desejada por Gandhi. Este fez, mais uma vez, um jejum, que afirma ser 'até a morte', para protestar contra a dominação britânica, e para pedir paz ao seu Povo.

Em momentos considerados cruciais para a economia britânica, Gandhi convocava o povo para ‘jornadas de jejum e meditação’. Na prática ninguém trabalhava, mas Gandhi jamais utilizava a palavra ‘greve’. A expressão apropriada, dentro da Tradição hindu, para o que se estava fazer, era ‘Jornada de Jejum e Meditação’.

Admirado por aliados e adversários, o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, chamou-lhe ‘faquir despido’. A questão a reter é esta: Um faquir despido, que se alimenta com uma côdea de arroz e uma tirina de água por dia, e se veste com uma peça de tecido, feita por ele mesmo, e que muito se assemelha a uma fralda, um homem com tal forma de comportamento e hábitos espartanos, pode ser suspeito de corrupção? Alguém presumiria estar ele a lutar por algo diferente do que diz? Albert Einstein saudou-o como ‘Porta-voz da Humanidade’.

Quando o armamento mais sofisticado está nas mãos do adversário, que domina, a resistência pacífica, fundada na resistência e persistência pela Verdade, é o encaminhamento mais eficiente. Era impossível, aos hindus, derrotar o dominador britânico, através de guerrilhas ou através da luta armada. Mas, utilizando a Verdade como arma, o seu poderio era inquestionável.
Encaminhar o processo político, a partir do que de mais sincero, bonito e duradouro existe na Tradição e na Alma do seu Povo! Esta é uma das lições que nos deixa Mahatma Gandhi!

16 de outubro de 2012

António Aleixo, o Poeta do Povo Português...


Filho de José Fernandes Aleixo, tecelão, e de Isabel Maria Casimiro, doméstica, António Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António, no dia 18 de Fevereiro de 1899.
Ainda criança de tenta idade, recebeu profundas influências do meio social e familiar, que o marcaram para toda a vida, e em parte explicam o grande poeta que viria a ser.
A luta pela sobrevivência, logo nos primeiros anos de vida, e a procura de processos que facilitassem essa luta, ocupavam o primeiro lugar na ordem das preocupações dominantes do futuro poeta.
Naquele tempo, ser “menino” era só para os ricos. Foi em Loulé, onde os pais se fixaram definitivamente, após saírem de Vila Real de Santo António, que António Aleixo despertou para a vida e sofreu os primeiros reveses da sorte.
Vivendo no seio de uma família que bem cedo se tornou numerosa, e por isso se debatia com enormes dificuldades, num ambiente de miséria e de obscurantismo, António Aleixo foi moldando e temperando o seu espírito sensível no contacto diário com a gente do Povo a que pertencia, e que, desde muito novo, desejou entender para cantar.

Era ainda muito novo
Já tinha grande vontade
De ser um poeta do povo,
Ainda com pouca idade.

Na verdade, António Aleixo tinha apenas 9 ou 10 anos quando se sentiu poeta pela primeira vez.

Já quando um homenzinho é que senti
O dilema terrível - que me impôs
A torpe sociedade onde nasci - :
De ser vítima humilde, ou ser algoz.

Certo dia, um sujeito, a quem a veia fulminante de António Aleixo não agradava muito, perguntou ao poeta quem era ele afinal. E António Aleixo, num dos seus brilhantes improvisos, respondeu, com toda a clareza e malícia:

Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da Nação,
Vendo jogo, guardo gado,
Só me falta ser ladrão.

Noutra ocasião, respondendo às acusações que certos “meninos fúteis” lhe faziam, António Aleixo definiu-se da seguinte maneira:
Não sou esperto nem burro
Nem bem nem mal educado
Sou apenas o produto
Do meio onde fui criado.

E a quem, uma vez, pôs em causa a sua honestidade, ou simplesmente o quis julgar pela aparência, o poeta popular replicou:
Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço,
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.


Outras quadras de António Aleixo:

Corta-se-me o coração
Ao pensar que passo a vida
Numa casa construída
De tábuas e papelão...

Houve grande reboliço
Lá pra os lados da cozinha:
Guerreou o feijão carriço
Com a asa da galinha.

Ontem rei, hoje sem trono,
Cá ando outra vez na rua;
Entreguei a roupa ao dono
E a miséria continua.

Neste carro de burgueses,
Comodamente instalados,
Parecemos dois marqueses
Com os brasões empenhados.

Se pedir peço cantando,
Sou mais atendido assim;
Porque, se pedir chorando,
Ninguém tem pena de mim.

Quem só veste o que lhe dão,
Vive sempre no inferno:
Traz sobretudo no v’rão
E anda em camisa no inverno.

Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos
São pedacinhos de pão
Roubados aos pobrezinhos!

Aos treze anos já trabalhava numa fábrica de têxteis. Casou muito novo e foi pai de 14 filhos, sete rapazes e sete raparigas, que lhe deu a esposa, Maria Isabel, natural dos arredores de Loulé.
Doente do estômago, bem cedo foi obrigado a deixar de trabalhar pelo ofício. Alto, tragicamente cómico na sua magreza triste de tuberculoso incurável, a dançar nas roupas humildes, António Aleixo passou os últimos anos da sua vida internado num Sanatório.
Poeta popular, tocador de guitarra e cantador de fados, em festas e arraiais, autor de quadras burlescas e outras, que mandava imprimir em folhetos e depois vendia de feira em feira, operário tecelão, polícia, pastor, emigrante e cauteleiro, António Fernandes Aleixo partiu para o Além, em Loulé, no dia 16 de Novembro de 1949, com 50 anos e quase oito meses de idade. Pouco tempo antes de nos deixar, o grande Poeta do Povo escreveu esta sugestiva quadra:

Um homem sonha acordado,
Sonhando, a vida percorre,
E deste sonho dourado
Só acorda quando morre.

O meu livro "Memórias de Tempos Idos"...


O meu livro “Memórias de Tempos Idos”, que tem 582 páginas, é o fruto mais visível de uma recolha cultural que eu realizei, durante mais de dez mil horas, no decorrer da qual ouvi cerca de quinhentas pessoas idosas e folheei alguns livros e alguns jornais, buscando resquícios das tradições do Povo de S. João da Madeira e arredores.
A primeira edição foi por mim apresentada no dia 9 de Novembro de 1992, em cerimónia realizada na Biblioteca Municipal e que fez parte das Comemorações do 66.º Aniversário da Emancipação Concelhia de S. João da Madeira.
Felizmente, não precisei de muito tempo para verificar que os mil exemplares dessa edição eram poucos para tanta procura.
Este facto, e o respeito que sinto pelos Sanjoanenses de antanho que, com indescritível esforço e inefável amor, edificaram S. João da Madeira, e pelos filhos de S. João da Madeira que, em terras distantes, labutam, sofrem e choram, sempre com o pensamento na sua terra querida, levaram-me a decidir publicar a segunda edição, corrigida e aumentada com diversas coisas que me pareceram de interesse.
Ofereci, com muito prazer, este meu livro, a Bibliotecas, Escolas, Artistas Populares, Cantadores ao Desafio, Tocadores de Instrumentos Musicais, Ranchos de Folclore e Colectividades.
Ainda tenho em meu poder algumas dezenas de exemplares. Para os eventuais interessados em adquiri-los, aqui estão os contactos: Email: costa.levimoreira@gmail.com - Telemóvel: 964132671.


Prefácio

Não fora o seu valor, «MEMÓRIAS DE TEMPOS IDOS» não estaria agora em 2.ª edição, corrigida e aumentada. LEVI MOREIRA DA COSTA mergulhou bem nas raízes populares, procurando, com desvelo, que se não perca tão grande riqueza: o Saber do Povo.
O seu grande amor à cultura popular, o respeito enorme pelos usos e costumes levaram-no a calcorrear os caminhos do esquecimento e deu-nos, neste livro, uma achega importante, para que, um dia, se faça a história de S. João da Madeira e desta Região.
Quase com religiosa devoção e benedinita paciência, ouviu os mais idosos e transpôs, para «MEMÓRIAS DE TEMPOS IDOS», factos e ditos, tradições e cantares, que ficam assim preservados, sem perigo de se perderem na velocidade galopante da vida moderna, no barulho ensurdecedor dos ruídos que nos atroam.
A singeleza da poesia e a maviosidade da música, que animavam as principais fainas agrícolas e enchiam de alegria os nossos arraiais e romarias, ficam em «MEMÓRIAS DE TEMPOSIDOS», como em cofre inexpugnável, que jamais incêndio algum poderá destruir.
E quem quiser fazer reviver esses idos tempos, quando um dia quisermos prestar homenagem ao salutar viver dos nossos avós, teremos, no livro de LEVI MOREIRA DA COSTA, motivos suficientes para fazer renascer a paz das aldeias, a alegria das coisas simples, a pureza e a calma da Natureza, a sinceridade da vida, que não teme, nem a luz do Sol, nem o olhar de Deus.
O seu trabalho merecia bem que os poderes públicos, minimizando um pouco o grande esforço financeiro que esta edição exigiu ao seu autor, lhe testemunhassem o reconhecimento pelo contributo valioso que veio dar à preservação da nossa identidade, como povo e como nação, que os «ventos da história» parecem ameaçar.
Em visita da Imprensa Regional às Casas Portuguesas do Rio de Janeiro, levei, numa amável oferta da Câmara Municipal de S. João da Madeira, alguns exemplares de «MEMÓRIAS DE TEMPOS IDOS», que fizeram as delícias dos seus Grupos Folclóricos.
Os testemunhos, que recolhi, e os agradecimentos, que recebi, foram a prova evidente da contribuição preciosa que o livro irá dar, para que a autenticidade do folclore se mantenha, mantendo aqueles portugueses saudosos da sua Pátria mais ligados a ela.
Porque, em «MEMÓRIAS DE TEMPOS IDOS», podem ir beber a autenticidade dos trajes e descantes do seu Portugal. Com esta 2ª edição, espera-se que maior seja a influência que, certamente, vai ter, no renascer das nossas seculares tradições.
LEVI MOREIRA DA COSTA é um sanjoanense por adopção. Faz parte daquele grande número dos que, embora não aqui nascidos, amam de tal forma S. João da Madeira que não desistem de a querer ver cada vez mais prestigiada, que se alegram com os seus êxitos e progresso e choram o mal e os percalços que lhe acontecem.
O seu livro «MEMÓRIAS DE TEMPOS IDOS» é disso sincero testemunho.
Em pequena ou grande biblioteca, em Escola ou Colectividade, em Portugal ou no estrangeiro, onde ele estiver, estará S. João da Madeira, estará esta rica região de Terras de Santa Maria.
Parabéns, Levi, e a maior divulgação para o seu livro.
São os votos do amigo e admirador.
S. João da Madeira, 17 de Março de 1997
Prof. Manuel Ismaelino de Matos e Sousa



Carta enviada por Ricardo Stockler, jornalista, escritor e historiador:


Data: 13/08/1991.

Caro Amigo e Sr. Levi,
Tenho andado a ler com o maior gosto o magnífico livro da sua autoria e, por isso mesmo, tenho demorado a agradecer-lhe a oferta do exemplar que me reservou.
Faço-o agora com muito apreço pois, à medida que progrido na leitura, mais me apercebo do importante e minucioso trabalho que o meu Amigo realizou.
De facto, trata-se de uma obra de grande fôlego que só podia ser levada a cabo com imenso esforço e paciência, qualidades que o Sr. Levi deu manifesta prova.
Creio bem que as ‘Memórias de Tempos Idos’ têm tudo o que é necessário para ocupar um lugar à parte na bibliografia sanjoanense. Por mim desejo o maior êxito à obra e felicito-o efusivamente por este trabalho.
Cordiais cumprimentos do amigo certo,
Ricardo Stockler



Texto de autoria do Dr. Manuel Pereira da Costa, Director do Jornal ‘O Regional’, publicado na última página da edição de 12 de Dezembro de 1992, deste Semanário:

Memórias de Tempos Idos
Um livro de Levi Moreira da Costa

É preciso deixar dito à entrada: o livro de Levi Moreira da Costa é uma obra fascinante. Chamem-lhe artesanato, chamem-lhe o que quiserem: é um daqueles livros que a gente abre e não cessa de se enriquecer; a gente folheia dum fôlego e só pára no fim. Muitos fôlegos, se me faço entender: o livro tem nada menos de 560 páginas, tão variadas e repletas que página lida é apetite para a página seguinte.
O prodigioso trabalho investido nesta obra é um acto de amor que não pode deixar de ser louvado – e como um elogio é das coisas mais saborosas da vida (sobretudo para quem o dá) -, o prazer de escrever esta nótula só é comparável ao prazer de ler uma obra tão substantiva. Apetece-me dizer que não devia haver nenhum sanjoanense de estante que não guardasse um lugar para esta monumental monografia. 
Não fosse algumas lacunas por certo intencionalmente desviadas do passo do autor, dir-se-ia que o passado popular de S. João da Madeira está lá todo: as gentes e os costumes, o folclore e os lugares, as pessoas e as instituições, o trabalho e os lazeres, as romarias e os passatempos, os artistas e os cantares, desfolhadas e esfarrapadas, contos e orações, sem faltar a rezas e os talhamentos, desde a espinhela caída à talhação do bicharoco.
Desfolhar este livro é abrir fontes da nossa juventude, os dizeres e os fazeres dos nossos avós – desfolhar este livro é ouvir as vozes do povo. Eis por que se trata de uma obra apaixonante, ponto de referência obrigatório para quem queira traçar uma panorâmica da nossa terra e da região sanjoanense.
A Câmara Municipal editou o livro e é credora, por isso, dos aplausos que justamente lhe cabem. Oxalá haja ressurgido a política de ajudar as edições dos nossos autores. Bem o merecem, eles que, como Levi Moreira da Costa, dão semente de um para cem à generosidade que lhe for concedida. E vem a propósito a pergunta (que, se for bem entendida, deve ser tomada como um incentivo urgente): quando se dará continuidade e fim à edição das obras completas de João da Silva Correia?
Não envio os parabéns a Levi Moreira da Costa porque ele merece muito mais do que isso: merece uma sincera e muito íntima admiração.

Sabedoria e Amor!...

Rosa Moreira da Cunha, também conhecida por Rosa Moreira. A minha Mãe!


Como toda a gente sabe, os nossos avós não podiam recorrer aos médicos sempre que adoeciam. Por isso, combatiam os seus problemas de saúde com aquilo que estava ao seu alcance:
Remédios caseiros (feitos com determinadas ervas, raízes, folhas e sementes de certas plantas), talhações e outras coisas do género.
Um dos muitos idosos com quem falei, há uns anos atrás, em S. João da Madeira, garantiu-me que, depois de um médico o ter “assustado”, tratou, eficazmente, uma pleurisia, com “chás de umas ervas que um homem velhinho lhe aconselhou”.

A linhaça (semente do linho) era muitas vezes aplicada em tratamentos de males que afligiam os nossos avós. Numa aldeia situada a poucos quilómetros de S. João da Madeira, residia, há várias décadas, uma senhora de fracos recursos, que era mãe de cinco filhos, todos de tenra idade.
Certo dia, um deles feriu-se gravemente na cabeça, quando foi à fruta de um lavrador, com os seus colegas. Dado que naquele tempo não havia uma assistência médica generalizada, não foi possível levar o menino ao médico. O dinheiro era muito pouco. E o médico mais próximo tinha o seu consultório a cerca de dez quilómetros de distância.

Só no dia seguinte, por volta das duas horas da tarde, é que o menino foi “visto” por um médico que veio à aldeia consultar uma senhora de idade que, estando enferma no leito, tinha possibilidade de pagar a consulta e os medicamentos.

Depois de consultar, cuidadosamente, a senhora, o médico, por insistência desta, aceitou ver o menino. Olhou para ele, tocou-o em várias partes do corpo e fez algumas perguntas. Volvidos poucos minutos, virou-se para a sua mãe e perguntou-lhe, em voz alta: “A senhora tem mais filhos em casa?”. Ao que ela respondeu, banhada em lágrimas: “Tenho mais quatro, Senhor Doutor”.

Disse-lhe o médico: “Então vá embora, coma e beba e trate bem deles, porque a este eu já não posso fazer mais nada”. A pobre senhora, ao ouvir aquelas palavras, começou a gritar. Os vizinhos vieram ver o que se passava. De entre eles saiu uma senhora idosa, de bom coração, conhecida por “Laura do Inácio”, que se dirigiu à mãe do menino e lhe disse: 
“Não chores, Rosa, entrega o menino a alguém de confiança e anda por minha casa que eu arranjo-te um remédio, que tu vais ver como ele melhora. Deus é grande!...”
A “tia Rosa” foi por casa daquela senhora, que lhe deu uma quantidade de linhaça e lhe disse que pusesse “papas de linhaça na cabeça do menino, durante toda a noite”.

Quando chegou a casa, a “tia Rosa” ferveu água com folhas de eucalipto e de malva. Deixou-a arrefecer e limpou a longa ferida da cabeça do seu menino com ela. Depois, com a ajuda de duas senhoras bondosas, começou a fazer o tratamento. Aqueciam a linhaça. Quando ela estava à temperatura adequada, embrulhavam uma certa quantidade num pano e colocavam-na em cima de ferida, substituindo-a quando ela estivesse a ficar fria.
Durante o tratamento, que durou toda a noite, as três senhoras, banhadas em lágrimas, rezaram, sempre, com muita fé, e pediram a Deus que ajudasse a curar o menino.

De manhã cedo, sem pararem de rezar e de pedir ajuda a Deus, as três abençoadas senhoras puseram o menino numa canastra e lá seguiram com ele à cabeça, “por montes e vales, descalças, mal vestidas e com a barriga a dar horas”, em direcção ao consultório do médico.
Quando lá chegaram, o médico, que tinha um número considerável de doentes para consultar, virou-se para a mãe do menino e brindou-a com estas palavras: “Eu já lhe disse ontem que não podia fazer mais nada!...”.

A pobre senhora estava tão cansada e tão abatida que mal se segurava em pé. Mas ainda arranjou forças, não se sabe aonde, para ajoelhar e suplicar: “Senhor Doutor, pelas almas de quem lá tem, consulte-me o menino!”. Repetiu estas palavras três vezes, enquanto acariciava os sapatos do médico. Perante a insistência daquela mãe, que estava visivelmente com o coração dilacerado, o médico, também ele com os olhos humedecidos, aceitou consultar o menino.

Examinou-o cuidadosamente. A certa altura, virou-se para a “tia Rosa” e perguntou-lhe em voz alta: “Ó senhora, que é que você andou a fazer ao menino?”. A “tia Rosa”, pensando que o médico estava a ralhar com ela, começou a gaguejar. Mas, volvidos alguns minutos, ganhou coragem para falar e disse: “Ó senhor Doutor, eu só lhe pus papas de linhaça na cabeça durante toda a noite!”.
“Só isso?”, perguntou o médico, muito admirado. E a “tia Rosa” respondeu: “Também rezámos, sempre, Senhor Doutor, e pedimos ajuda a Deus”. Disse, então, o médico: “Ó minha senhora, você salvou o seu filho. Ele já nem parece o mesmo. Agora a infecção está controlada e eu já o posso tratar. E a senhora vai ter de continuar a manter cinco filhos e não quatro!”. A “tia Rosa” ficou radiante. E o seu filho salvou-se.

Isto aconteceu há várias décadas. O tempo foi passando. E a “tia Rosa” partiu para o Além no dia 11 de Junho de 1994, pouco tempo antes de completar oitenta nos de idade, deixando esse seu filho, que é o autor deste modesto escrito, mergulhado em grande dor.
Neste caso, verídico, a sabedoria do povo, foi superior à sabedoria que se adquire nas Universidades. O médico, que havia estudado muito, durante longos anos, estava convencido de que o menino não tinha cura.

Aquelas humildes senhoras, que não conheciam uma letra do tamanho de um comboio, mas tinham a sabedoria que lhes havia sido transmitida, por via oral, pelos seus pais e pelos seus avós, entendiam que o menino podia ser curado.
Puseram em prática os conhecimentos que possuíam. Enquanto tratavam o menino, com muito carinho e com muito amor, foram rezando e pedindo a ajuda de Deus. E ao fazê-lo arranjaram um aliado poderoso. E foi assim que a sabedoria do povo, aliada ao amor de Deus, salvou uma vida.